A palavra xamã tem origem numa tribo da Sibéria (Tungus) e significa “aquele que vê no escuro”. De uma forma simplificada, nas tribos, o xamã era quem acedia ao mundo espiritual para trazer informação e cura para a sua comunidade.

Nos anos 60, o antropólogo norte-americano Michael Harner visitou e conviveu com várias tribos e sintetizou o que encontrou como sendo comum, chamando-lhe Xamanismo Essencial (Core Shamanism). Os princípios básicos são os de que tudo o que existe está vivo e tem uma dimensão espiritual que não se vê, mas à qual podemos aceder através das viagens xamânicas. Ao som de um tambor ou de uma maraca – e porque as ondas cerebrais desaceleram – entramos em estado alterado de consciência e conseguimos o contacto com o mundo espiritual.

Fascinada desde sempre pelo Xamanismo, comecei por fazer as formações, em Portugal, na Florescer (representante portuguesa da Foundation for Shamanic Studies, de Michael Harner). Apaixonada, também, pelos temas do feminino, segui para Dorset, em Inglaterra, para uma formação de dois anos na Shamanka School of Women, dedicada ao Xamanismo para empoderamento e cura das mulheres. Na mesma altura, fiz uma viagem espiritual ao Peru, onde experienciei e aprendi com os xamãs locais. Voluntariei-me, há seis anos, para traduzir as newsletters mensais de Sandra Ingerman, autora e professora de Xamanismo. E acabei a fazer a formação para Professores de Xamanismo com Sandra Ingerman, na Escócia.

group photo Curso para Professores de Xamanismo, com Sandra Ingerman (Escócia)

Sandra Ingerman foi, durante muitos anos, professora e braço direito de Michael Harner na Foundation for Shamanic Studies. Seguiu o seu caminho independente da fundação, tornando-se conhecida por fazer a ponte entre a raíz e os fundamentos do xamanismo ancestral com as vidas que levamos nas sociedades modernas. Esta aplicação das técnicas xamânicas ao nosso dia-a-dia e ao meio urbano tem ficado conhecida como Xamanismo Urbano ou Neoxamanismo. Sandra  Ingerman especializou-se no Resgate de Alma, uma das práticas de cura xamânicas, escreveu vários livros sobre xamanismo e tem ensinado milhares de pessoas por todo o mundo, ao longo dos anos. E não se considera xamã.

É este xamanismo sem xamãs que pratico e ensino, no meu dia-a-dia, acessível a quem quiser praticá-lo até no seu apartamento. Ao aprendermos os fundamentos e as técnicas, o Xamanismo é uma prática independente, de revelação directa, com efeitos profundos e transformadores nas nossas vidas. E tem-se revelado uma prática excepcional de tratamento e cura do feminino ferido.

Em nenhuma destas formações são dados certificados. E porquê? Com palavras diferentes, mas sempre com o mesmo argumento: “não se certificam xamãs” e “o facto de se fazerem formações, não significa que as pessoas sejam bem sucedidas a trabalhar na área”. Ser xamã não é uma escolha nossa nem é um diploma que o vai certificar. Além disso, para se tornar naquele/a que vê no escuro, há muitas vezes um processo duríssimo de iniciação, daí a expressão “curador ferido”. Um homem ou uma mulher que tiveram de se curar a si próprios, conhecer as verdadeiras dimensões da dor humana, para conseguirem ser o “osso oco”, a ligação entre as realidades.