Durante muitos anos tive uma ideia concreta e definida do que era a realidade, havendo até momentos em que a minha realidade se sobrepunha à dos outros. Era A realidade.

Com o passar dos anos, o amadurecimento pessoal e o crescimento interior, a curiosidade de saber e procurar mais levou-me a questionar o que dantes dava como certo e garantido.

Se estivermos bem atentos ao que se passa à nossa volta e às mensagens subtis que existem para além do que é visível e palpável, será que existe uma realidade inquestionável e imutável na qual possamos confiar?

É certo que este questionamento nos traz insegurança, pois todas as crenças e bases em que o nosso mundo assenta começam a ser postas em causa e derrubadas. Por outro lado, abre-se todo um universo de possibilidades que aumenta a sensação de liberdade e esperança. Afinal, se calhar há outras possibilidades, mais gratificantes, que não ponderámos porque acreditámos numa determinada realidade.

Pode não ser fácil, é certo, “lutar” contra toda uma estrutura instituída que sempre nos construiu realidades. Podemos, até, sentir-nos sozinhos nesse caminho. Mas vale a pena, ao menos, parar para pensar em que realidades acreditamos.

Dou sempre um exemplo pessoal do estacionamento. Tenho uma amiga cujo drama constante é estacionar o carro à porta de casa. No entanto, quando a visito, há sempre um lugar para mim. Na praceta dela e em qualquer sítio aonde tenha de me deslocar. Porque acredito profundamente que consigo encontrar um lugar, nem que precise de dar mais umas voltas. É a minha realidade, que nem sequer ponho em causa porque não duvido dela.

Tenho tentado aplicar a mesma regra com questões de trabalho, relacionamentos, auto-imagem, frases feitas e ditados populares que, se pararmos para pensar, têm condicionado – e muito! – as nossas vidas.

Em que escolhemos acreditar? Que vamos ter estacionamento ou que a praceta é um sítio complicado e nunca vamos conseguir estacionar? Apesar de poder não ser assim tão fácil e directo em todas as situações, a minha realidade torna-se aquilo em que eu escolho acreditar.

Todos nós podemos criar novas realidades para as nossas vidas, mas, para isso, precisamos de acreditar nelas e libertar as que não nos servem.

Que atravessámos uma crise económica, todos nós sabemos e foi-nos dito inúmeras vezes! Mas essa foi uma realidade para toda a gente? Foi mesmo? Ouvi vários relatos de quem não se sentiu em crise e, pelo contrário, melhorou as suas vidas enquanto outros se afundaram (para não dizer que alguns enriqueceram à custa da crise dos outros).

Por isso, o meu convite é que questionemos as nossas supostas realidades, sobretudo aquelas que não nos agradam e que nos fazem sentir presos, condenados ao fracasso, e que nos causam dor e sofrimento.

Que esta reflexão nos ajude a agir. Ou, no mínimo, a parar para pensar. Sabem porque há tanta gente que não quer pensar ou tem medo que os outros pensem? Porque, se eu penso, posso começar a questionar, a pôr em causa. Se ponho em causa, revoluciono e posso encontrar alternativas. E, assim, os vários poderes instituídos (patrões, governos, famílias, mulheres e maridos, crenças internas, etc, etc) abanam e podem chegar a cair… E isso talvez nem sempre interesse.

Que o que nos resta de Fevereiro e o mês de Março que entra sejam bons meses, com a coragem de pormos em causa o que nos tem feito infelizes 🙂