A morte de um progenitor é um dos maiores abanões que um ser humano pode levar na vida. Tão grande ou maior do que este, só me ocorre a perda de um filho (e, talvez, se equipare a de um irmão). Para nós, mulheres, o pai foi a nossa referência de masculino, aquele a quem quisemos agradar e a quem gostaríamos de ter agradado e correspondido às expectativas.

Quando perdemos fisicamente o nosso pai, por muito que acreditemos que o espírito nunca morre, há um pedaço de nós que é arrancado das entranhas, há uma dor profunda que sabemos que nos vai transformar para sempre. Recentemente, uma cliente dizia-me que, desde a morte do pai, “o mundo parece ter ficado metálico”. Eu acrescento que parece que há uma dureza e uma força que emergem, assim como o sentimento de que há coisas que pouco ou nada importam. Por isso, sim, o mundo parece deixar de ser um lugar confortável e acolhedor, com uma melodia suave, para se tornar num ambiente inicialmente confuso e ruidoso.

O que fazemos quando perdemos o nosso pai? No meu caso, o meu pai era um grande amigo, um ser humano impecável e bondoso que me passou uma série de valores imprescindíveis. Do lado sombra, também me desafiou e mostrou o que preciso de desenvolver e de trabalhar em mim. Foi a pessoa perfeita para a minha aprendizagem. E continua a ser porque o que me deixou nunca morre. Eu amava o meu pai e defendia-o incondicionalmente. E sei o que ele sentia e fazia por mim.

Enquanto os nossos pais estão fisicamente connosco, vamos mantendo a esperança que só os pais dos outros morrem, os nossos nunca. É um processo muito inconsciente de evitarmos lidar com a dor dessa eventual perda. Vamos, também, dando permissão a pequenos amuos e zangas porque sabemos que amanhã eles vão estar lá e vai ficar tudo bem. E se, um dia, eles não estão? E se fica algo por dizer e/ou por fazer? Como é que eu me vou sentir?

Noutros artigos falarei do que podemos fazer enquanto estão vivos, dos casos em que não fomos criados por eles ou das situações de desavenças. Hoje, sugiro só esta reflexão:

  • como me sinto desde a morte do meu pai?

  • o que mudou profundamente dentro de mim?

  • com a morte do meu pai, qual é a minha perspectiva do mundo e da vida que levo?

  • como ficou estruturada (ou desestruturada) a minha família depois dessa perda?

Um processo de luto passa por muitas fases, não tem tempo definido e depende de cada pessoa e situação. Perdi o meu pai, vou ser paciente comigo e vou gerindo esta perda, sabendo que há coisas que nunca voltarão a ser as mesmas.

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