Um dos grandes medos do ser humano é envelhecer sozinho, não ter alguém que o apoie, ouça, admire, com quem partilhe os bons e os maus momentos e, em última análise, que lhe faça companhia nos vários momentos da sua caminhada. E morrer sozinho? Para a maioria das pessoas é terrível e angustiante só de pensar nisso. Para evitarmos o confronto com a solidão, multiplicamo-nos em tarefas, hobbies e saídas com os familiares e/ou amigos. Entramos e saímos de relacionamentos com a mesma facilidade que vamos às compras ou tomamos um copo com um amigo. Tudo para não encararmos o que consideramos ser a solidão.

Há outras pessoas, ainda, que passam dias sem ter com quem falar, que não têm família, que não conseguem enumerar um grande amigo. Lembro-me, enquanto jornalista, de receber chamadas no programa de rádio de pessoas que, às onze da noite, falavam com alguém pela primeira vez nesse dia. Lembro-me, também, de ter feito reportagens, em lugares mais isolados de Portugal, em que fui a primeira e única visita daquelas pessoas em vários dias. Mas nem é preciso ir muito longe. Há muitas pessoas, nas grandes cidades, isoladas nas suas casas.

Não estão mais sozinhas as pessoas que não têm alguém com quem falar do que aquelas que não param para se ouvirem. São apenas realidades exteriores diferentes, mas que conduzem ao mesmo estado de alma.

Mas será que estamos mesmo sozinhas? O ser humano é um ser social, precisa de relação, de desafio, de espelho. No entanto, a grande e verdadeira companhia, que nunca nos abandonará, somos nós próprias. Seguindo esta filosofia, nunca estamos nem vamos morrer sozinhas. Estamos e vamos estar lá. Sempre!

O grande problema é que, com os outros, estamos momentos do nosso dia e podemos “saltar fora” quando nos apetecer, mas não nos podemos livrar de nós nem da nossa companhia. E há tantas alturas em que estamos tão fartas de nós próprias! Se fosse um amigo ou amiga já lhe tínhamos dito que não podíamos ficar mais tempo e iríamos embora. Connosco, isso não funciona.

Então, se a única e fiel companhia com quem podemos contar até ao fim somos nós, é muito importante que consigamos desenvolver uma relação saudável, amorosa e gratificante connosco. É um processo que leva tempo, requer esforço e terá sempre momentos de desencanto e aborrecimento. E não anula a vontade e benefícios da relação com os outros. ‘Simplesmente’ retira o peso de que, se eu não tiver sempre coisas para fazer ou alguém ao meu lado, estou sozinha. É uma mentira da mente.

Sinto que temos essa responsabilidade para connosco. A de nunca, mas nunca, nos abandonarmos. A de nos escolhermos em primeiro lugar, sobretudo quando se trata de manter a saúde e a estabilidade emocional. A de fazermos os possíveis para sermos as nossas melhores amigas e, como uma melhor amiga, darmo-nos conforto e apoio.

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